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Quem Samba Fica, Quem Não Samba Vai Embora

*Abaixo, íntegra da carta “Quem samba fica quem não samba vai embora”, de Carlos Marighella. Dirigida aos revolucionários de São Paulo, a carta foi escrita em dezembro de 1968.

 

É a seguinte a relação de forças na Organização: vamos atuando aqui e ali. Toda ação nossa de razoável envergadura sempre dá dinheiro. Há uma ordem de preferência na aplicação. As viagens às áreas estratégicas têm preferência. Viagens significam preparação de pessoal altamente qualificado. Isto é coisa a longo prazo. Por enquanto debilitamos a organização pegando os melhores e mandando-os viajar, para que se preparem bem em todos os sentidos. Isto é inversão de capital. Amanhã tudo será transformado em melhores ações. Haverá mudança de qualidade. A Revolução não é coisa abstrata.

Então continuamos lutando sem desfalecer, indo devagar até conseguirmos o que queremos. E um jogo de paciência, de decisão e de vontade. A persistência é a melhor qualidade do revolucionário. O homem por sua vez é seu melhor capital. Todo capital que empregamos para preparar gente é capital rentável. E rende depois. Assim estamos trabalhando porque a guerra contra eles é longa e prolongada e não se baseia em combates decisivos, mas na paciência chinesa, na astúcia, na sagacidade, na malícia, no reconhecimento de que somos fracos e eles fortes. Precisamos trabalhar os jovens. Ou melhor: precisamos trabalhar com os jovens. É preciso dar oportunidades aos jovens e responsabilizá-los com problemas que só a juventude pode resolver. Tragam jovens para a ação, para contatos, reuniões se for o caso. E gente jovem para viajar e aprender. Quando voltarem, pouco a pouco, irão cuidando de tudo, queiramos ou não.

Outro gasto a se fazer é com a área estratégica. Esta área é mais importante que a cidade. É decisiva. A cidade é complementar. No caminho que seguimos no Brasil, não devemos deixar a cidade abandonada. Sem a cidade não haverá êxito na área estratégica rural. Mas a cidade trabalha para permitir o lançamento da área estratégica.

Lançada a área estratégica, muda a qualidade do movimento e a coisa pega fogo. Mas a cidade é um cemitério de homens e recursos. Quanto mais recurso se lança na cidade, mais é preciso empregar. A cidade, se a área rural em movimento não tem perspectiva, cansa e leva ao desespero. Consome tudo e não tem de onde receber. Temos que ir empregando algo na cidade, sem perder o campo de vista, esperando o momento de lançar a área estratégica rural. Uma vez esta lançada, a cidade é arrastada. Encontra-se diante de um fato consumado. Com um pequeno trabalho inicial na cidade, com o apoio de uma pequena rebelião preparada antecipadamente, os gorilas ficam enganados.

Para a preparação desta rebelião empregamos alguns recursos em toda parte urbana importante. A questão do emprego de recursos obedece ao plano estratégico e não ao emprego de capital para manter e somente quando estas estão bem “azeitadas”, lançar o movimento rural. Ainda quando se trata de armas podem ser consumidas e já há homens em quantidade suficiente para manejá-las bem e economicamente.

A tarefa de vocês é logística, mas acontece que de acordo com o desenvolvimento das ações, criam-se três frentes: a frente guerrilheira, a frente de massas e a rede de sustentação. Isto se dá tanto na área rural quanto na área urbana. Na frente guerrilheira existe a organização dos GTA e das áreas estratégicas, assim como a dos eixos guerrilheiros. Na frente guerrilheira existe também o ICR, a captura de armas e munições. Há além disso na frente guerrilheira a preparação de sabotagens e a formação de professores na especialidade e também na execução prática.

Não devemos dar trégua. Cada uma pequena ação e de vez em quando as grandes. Vocês têm carta branca na frente guerrilheira para desencadear a ação. Só não têm carta branca para coisas burocráticas, isto é, para impedir ações planejadas pelos grupos, sejam eles quais forem. Nem podem fazer discussões formais. É preciso ação e mais ação. Distribuir manifestos, pichar muros, sabotar, fazer política de terra arrasada, tudo isto com o trabuco na cintura. Ninguém deve se deixar prender sem resistência. Por isto deve andar armado. E atirar para matar policiais e dedos-duros.

A ditadura tem medo e nós não vamos parar nem sair do ritmo porque os fascistas deram um golpe dentro do golpe. Levem trabalho na frente guerrilheira para o interior e para todas as partes. Vejam quem quer fazer e dêem carta branca. É preciso acabar com a omissão e a vacilação. A ação não prejudica. Que seja planejada e executada sem demora. Ponham os jovens nisso. O dinheiro só vem da ação.

Na frente de massas não preciso dizer nada. Vocês são especialistas nisto. Operários, camponeses, estudantes, padres e intelectuais: todos devem ser estimulados para a ação de massas. A frente de massas deve possuir potência de fogo e responder a tiros. A frente de massas deve ser conduzida a adotar táticas guerrilheiras. Tudo que se pode fazer está resumido no capítulo “A nova fase da luta” da mensagem. A rede de sustentação são as casas, os esconderijos, a fabricação de armas. Vocês devem fazer um balanço de tudo que possuímos nas três frentes e traçar novas tarefas de organização, colocando, à frente de cada setor de atividade, os elementos que se destacaram na ação e querem ação e não burocracia. A coordenação, se atrapalha a ação, pode deixar de existir.

O fundamental na organização são os grupos e a atuação de baixo para cima. Uma coordenação ativa e revolucionária leva a ação para diante. Os grupos devem unir-se de baixo para cima, a partir da ação. Podem ser feitas ações em conjunto. Todos os grupos nossos ou não nossos devem ser chamados para a ação conjunta, para ICR, seja para o que for contanto que acabe a ditadura e o imperialismo. De todo modo, o problema é quem samba fica, quem não samba vai embora.

Nossos vínculos são ideológicos. Quem diverge ideologicamente deve dizer e colocar-se em sua verdadeira posição. A verdade deve ser dita claramente. O que acontece é que a juventude está vindo para a organização, porque vê nela a decisão de fazer, executar, atuar sem burocracia e sem respeitar os velhos e gastos padrões de centralismo democrático, tão desprestigiados e desmoralizados. Nossa democracia é revolucionária. É a democracia da ação, o que é útil à revolução e não a meia dúzia de burocratas e faladores. O problema para nós é o seguinte: perguntar o que faz, o que quer, que ações já participou e onde quer chegar. Se alguém acha que o nosso caminho armado é o correto ou não é correto, faça o favor siga seu caminho e não está obrigado a seguir o nosso. E quanto a vocês que têm uma posição ideológica determinada, não têm que esperar por mim. Tomem a iniciativa, assumam responsabilidades, façam. É melhor cometer erros fazendo, ainda que disto resulte a morte. Os mortos são os únicos que não fazem autocrítica.

Ativistas mudam nome de rua para homenagear Marighella

No último dia 4, a Alameda Casa Branca, no bairro do Jardins (em São Paulo) amanheceu com placas de identificação com o nome Carlos Marighella, assassinado nesta rua, há 42 anos.

Segundo os ativistas de direitos humanos que participaram da ação, realizada nesta madrugada, a rua deve passar a se chamar Alameda Carlos Marighela.

Confira o áudio da notícia: ativistas-mudam-nome-de-rua-para-homenagear-marighela

42 anos da morte de Carlos Marighella

Há 42 anos era brutalmente assassinado Carlos Marighella, um dos maiores e mais importantes lutadores do povo brasileiro. 

Nascido em 5 de dezembro em Salvador-BA, filho de uma negra e de um imigrante italiano, Marighella entrou para a vida política aos dezoito anos de idade. Aos 21 anos foi preso pela primeira vez – primeira de muitas que enfrentaria em toda sua vida – por escrever um poema com críticas ao interventor Juracy Magalhães.

Incansável, Marighella nunca se calou perante as injustiças da sociedade brasileira. Sua militância foi marcada pela flexibilidade de se adaptar às mais diversas formas de luta, do parlamento à clandestinidade, da poesia à luta armada.

Já na clandestinidade após o golpe civil-militar de 1964, Marighella é identificado por policiais do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) num cinema no Rio de Janeiro. Após travar uma luta contra os policiais, Marighella é ferido e mais uma vez preso, episódio que descreveria mais tarde em seu livro “Por que resisti à prisão”. Marighella consegue transformar sua defesa em um ataque contra os abusos da ditadura recém instalada no país. Tranfere-se para São Paulo.

Contrário às posições adotadas pelo PCB, partido no qual compunha a Comissão Executiva Nacional, Marighella é expulso em 1967. A partir da leitura de que a luta armada é a única alternativa que resta no combate à ditadura, Marighella funda em fevereiro de 1968 a Ação Libertadora Nacional (ALN). Em setembro de 1969, a ALN participa do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em conjunto com o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). A ação visava a libertação de militantes políticos presos pelo regime militar. A esta altura, Marighella já era o inimigo número 1 da ditadura.

Em 4 de novembro de 1969, Marighella é alvo de uma emboscada comandada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury. Às 20 horas, na Alameda Casa Branca, tombava um dos maiores personagens da luta política no Brasil. A ALN ainda resistirá mais 5 anos até seu desmantelamento em 1974.

Hoje, 42 anos depois, o exemplo da coragem deste lutador está presente entre nós. Marighella nunca se curvou diante às dificuldades. Resistiu à várias torturas, calou-se, quando necessário. Gritou e lutou numa época em que o terror pairava no ar. Que a luta deste grande herói brasileiro esteja presente em nossos corações e mentes, e nos dê mais força para continuarmos nossa caminhada rumo a uma sociedade mais justa e livre de explorações.